domingo, 9 de outubro de 2011

Sertão, Campo Grande, Bambuí.


Olá pessoal, tudo bem? Nessa postagem falaremos sobre um trecho da história da nossa região, que já foi chamada de Sertão. Falaremos também sobre o Campo Grande, área que estava inserida no Sertão, famosa e temida por seus numerosos quilombos e bravos índios. Então, vamos lá.
Para começar, vamos explicar um pouco sobre o termo sertão. A palavra sertão pode ser encontrada em vários documentos do período colonial, e era usada para designar diversas áreas. O que essas áreas tinham em comum era o fato de estarem distantes do litoral e dos núcleos populacionais. Eram áreas rebeldes que precisavam ser dominadas, pois forneciam excelentes esconderijos para índios, quilombolas e fugitivos da lei que não contribuíam com impostos para a Coroa Portuguesa. O termo sertão refere-se também à ausência de traços culturais como, por exemplo, a inexistência de plantações.
Durante o século XVIII, a área que corresponde atualmente ao oeste do estado de Minas Gerais, bem como uma pequena parte do norte do estado de São Paulo e um trecho da região sudeste de Goiás era conhecida apenas por Sertão. O mapa a seguir nos mostra a sua localização aproximada:
Inserido no sertão estava o Campo Grande, região compreendida entre Tamanduá (Itapecerica), Alto Paranaíba e parte do Triângulo Mineiro. É importante ressaltar que os termos Sertão e Campo Grande eram usados genericamente e não forneciam com exatidão suas respectivas áreas ou localizações (nem mesmo os limites entre as comarcas e entre as próprias capitanias brasileiras estavam definidos no século XVIII). Segundo o pesquisador Warren Dean, em seu livro “A ferro e a fogo: a história da devastação da Mata Atlântica brasileira”, a região denominada Campo Grande teria aproximadamente 860 quilômetros quadrados de extensão.


Disputas pela posse do Campo Grande

A partir da segunda metade do século XVIII, após anos de intensa exploração, várias minas de ouro brasileiras já demonstravam fortes sinais de exaustão. Surgiu então a urgente necessidade de se encontrar novas terras para aumentar a exploração de ouro, aumentar a agricultura e incrementar a arrecadação de impostos para beneficiar a metrópole. Em função disso, várias expedições foram enviadas ao Campo Grande com o objetivo de desbravá-lo. Não foi encontrado ouro na quantidade desejada na região, mas em contrapartida desenvolveu-se no local uma intensa atividade agrícola. Isso pode ser confirmado nos relatos de viajantes que passaram pelo Campo Grande no século XIX, dentre eles o ilustre naturalista francês Auguste Saint-Hilaire, que encontrou a área devastada em função da agricultura. Com isso, podemos concluir que a região possuía um grande potencial para enriquecimento rápido e isso despertou a ambição de muita gente.
No decorrer do século XVIII, a posse do Campo Grande foi bastante contestada pelas capitanias de São Paulo e Goiás. Os mineiros alegavam ter desbravado e colonizado a região sozinhos, portanto, segundo eles, as terras do Campo Grande deveriam estar sob sua jurisdição. Como eram crescentes as tensões entre as capitanias, o governo de Minas Gerais se viu obrigado a tomar medidas para minimizar os conflitos na região. Dentre essas medidas, destaca-se a organização de expedições que tinham como objetivo a definição de fronteiras entre as capitanias, o que contribuía também com a diminuição do contrabando de metais preciosos devido à falta de fiscalização.

Itinerário feito pela comitiva do governador de Minas Gerais, Luís Diogo Lobo da Silva, que partiu de São João del Rei em setembro 1764. A expedição também contou com a participação do futuro inconfidente Cláudio Manuel da Costa, e foram percorridas 356 léguas em pouco mais de três meses. Preocupado com os problemas frequentes na região, Luís Diogo convida Inácio Correia Pamplona para liderar uma outra expedição com o intuito de procurar ouro, destruir os quilombos e os índios bravos do Campo Grande, bem como reestabelecer os limites entre Minas e Goiás, área rica em ouro.


É importante lembrar que os conflitos nas esferas oficias pela posse do Campo Grande favoreciam a sobrevivência dos índios e quilombolas que o habitavam. Para eles seria melhor se o Campo Grande estivesse sob domínio goiano, visto que a Capitania de Goiás era mais pobre e menos povoada que a de Minas Gerais. Além do mais, sua sede administrativa (atual Goiás Velho) estava mais distante da região, por isso não conseguiria manter vigilância constante sobre ela. Outro fato interessante refere-se às imagens criadas sobre os habitantes do Campo Grande: os índios, os quilombolas e os vadios. Essas imagens, que permaneceram no imaginário da população durante muito tempo, eram sempre negativas e usadas para negar o direito dos mesmos à terra.
Pessoal, é isso aí. Como pudemos perceber, o Campo Grande despertou a cobiça de muita gente com o objetivo de enriquecimento rápido e foi palco de diversas disputas de interesses. Caso queiram saber mais sobre a história da região e sobre seus habitantes, recomendamos a leitura da tese de doutorado da historiadora Márcia Amantino: “O mundo das feras: os habitantes do Sertão Oeste de Minas Gerais – século XVIII”. A dissertação é um documento muito completo sobre a história da região e dela retiramos muitas informações para a elaboração dessa postagem. Também recomendamos os livros “Nos confins do Sertão da Farinha Podre”, do jornalista Mário Lara, e “Bambuí nas trilhas da Picada de Goiaz”, do historiador bambuiense Lindiomar José da Silva.

Até a próxima!